Crônicos & Agudos

Vegetarian Delight

O Prozac me fez precisar voltar a comer carne. Consequência do jornalismo. Mas as confluências cósmicas, bem como os orgasmos, duram menos tempo do que deveriam. Logo, pelo pouco tempo que jazz, prozac, jornalismo e muita proteína texturizada de soja conviveram, causara-me um orgasmo cósmico.

Vegetarian Delight
(acabei de inventar o nome, mas faço há algum tempo)

1 Pimentão verde
1 Pimentão amarelo
1 Pimentão vermelho
1/2 cebola
300g de Proteína texturizada de soja (PTS)
Shoyu

Acompanhamento: Arroz integral

Corte os pimentões e a cebola em quadrados, frite. Quando dourar, sapeque um pouco do shoyu.
A PTS já deve estar hidratada (ferva meio litro de água, coloque a PTS. Deixe por 10 minutos. Escorra num escorredor de macarrão e logo em seguida dê choque térmico com água fria)
Boa, agora joga a PTS no molhinho fritando e mistura. Cabe um champignon em fatias (mas é meio caro).
Ah, a frigideira tem que ser grande, senão faz a maior zona.

Serve umas três pessoas ou segura bem a larica de 2.

Para o som, Nina Simone, canta jazz. Morreu em 2003. Negona porreta, voz grave pra caramba. Gravou o clássico do Animals “Don´t let me be misuderstood” numa versão suicida.

Não, não sou fanático por jazz. Só de vez em quando. Mas, com uma chuva fina na janela…

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Calçado pra posteridade

Todos eles mostravam os dentes sob a túnica, em geral, estampada. Todos sem exceção apertavam os olhos mostrando rugas empoeiradas naquele calor que fazia em Tikrit, Iraque. Era Janeiro.

Em volta do pedestal, as crianças pareciam expurgar tudo o que reprimiram esse tempo todo, tempo que a infância desgraçada não permitiu conhecer alegria. E expurgam porque o sorriso dos adultos permite. Faz cama pras crianças dançarem sob a estátua no meio do nada, como se dançasse sob a névoa branca de um chafariz.

Saddam está enterrado em Tikrit, também lá foi o palco de conquistas do povo árabe. Agora inaugura-se uma estátua em homenagem à sapatada que aquele jornalista (quase) deu no ex-presidente norte amenricano. É por isso que o povo ri.

Com o trabalho de quinze dias um artesão iraquiano calçou na posteridade o sapato atirado contra a face do que roia seu povo. Foi quase, a sapatada.

Mas diga: qual foi a última foto do Iraque, veiculada pela grande imprensa, que trazia um sorriso sequer? Um desdentado que seja.

Não, minha amiga, nenhuma. Busca rápida de imagens no Google: braços amputados, crianças desesperadas, mortes, mortes. Arrisco a dizer que nos últimos anos não vi uma foto feliz daquele lugar.

Motivo de desgraça e riso, o ex-presidente saiu ileso, mas não é essa a discussão. Incrível como a primeira coisa que vêm à cabeça quando se pensa na felicidade no Iraque é a desgraça. Como se na dualidade, essa felicidade fosse incapaz — e de fato é — de superar as desventuras de um sem fim de bombas e atentados àqueles sorrisos.

Não há critica de arte que possa deixar essa escultura de fora das salas dos grandes mestres. Ao preço de desapontar aquelas crianças que brincam ao redor do estandarte da escultura. Sob pena de desanimar aqueles sobreviventes.

Não sou afeito a vinganças, a atentados. Aliás, sou meio afeito a essas coisas. Mas que na escultura, por um capricho do destino, o referido sapato poderia ter um amassadinho, uma marquinha de testa ou de queixo, isso podia.

sapato

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Vizinhos meus

Quem já morou em casa geminada sabe do que eu estou falando. O pior de morar nessas casas são os vizinhos. Nada tão existencialista, como o inferno são os outros, do Sartre. É na prática mesmo. Quando mudei pra essa casa, a oeste tinha uma família excelente. Não faziam barulho algum, não apareciam na rua direito. Gente finíssima. Inclusive, dois anos depois fui descobrir que trabalhava junto com o meu vizinho.

Ele estava de mudança e me deu a notícia no corredor da empresa, assim, como se eu soubesse do que ele estava falando. Eu olhei com espanto e ele, meio sem jeito, disse que era meu vizinho. Gente finíssima.

Pois mudou-se e a casa ficou vazia por uns meses. Nada de diferente.

Aí chegou um novo vizinho. Chegou quieto. Mas tossia — tossia pra caramba, a noite toda. Eu o encontrava às vezes quando chegava do trabalho. Sempre oi, oi. Só.

Um dia ele bateu em casa, pediu desculpas por aquele dia em que ele aumentou o som — não dava nem pra ouvir a TV —, mas já tinha até esquecido. E entre as justificativas, pediu quinze reais. Agi da maneira mais natural possível, sei que é difícil pedir dinheiro emprestado, a gente fica se achando a pessoa mais indigna do mundo. Emprestei vinte.

Ele falou lá o dia que ele ia pagar, mas eu estava mais preocupado em não ofendê-lo emprestando do que saber quando ele ia devolver. Por fim passou o dia e eu nunca mais vi o cara. Mas ele ainda tossia noites a fio.

Outro dia, voltando do trabalho, passei na frente da casa dele — não olhei pra não parecer cobrar nada —, rumo ao meu portão. Foi passar e ouvir um opa. Pensei, bom vai me pagar ou vai dar uma boa desculpa.

Não era ele, era um amigo dele, que eu já tinha visto por aí. Me pediu uma chave Philips com haste comprida. E, antes de voltar com a chave, o mesmo rapaz me pediu um CD original. Qualquer um, pra testar o aparelho.

Sabe aquela sensação de perda?

Dos vizinhos do leste, juro, não vou comentar.

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Aquela chance de ficar quieto

Pararam o carrinho no caixa ao lado. A criança, contrariando as recomendações de segurança, transitava fora da cadeirinha, junto aos pacotes de biscoito, caixas de leite e carnes. Pai e mãe, supostamente, conversavam amenidades.

Supermercado cheio é um problema, tem aquelas pessoas que colocam o carrinho no meio, entre duas filas e pegam a que andar mais rápido. Às vezes vale até a lei de Murphy. Mas o casal foi assertivo. Carrinho na fila 17.

Regata estampada, o rapaz pegou a Caras na gôndola da boca do caixa. Ela olhava lâminas de depilar — barbeadores femininos? — enquanto abria um pacote de chicletes.

— Viu esse vestido? Igual ao da Soninha no Ano-novo.

— Magina, Marco. O dela nem tinha esses babados. Ai, deixa ela saber que você comparou o vestido dela com esse aí.

Virou a página. Simples como um homem resolve esses problemas, não? Nem aí pra o que a Soninha ia dizer, ele foi pra parte das fotos das mulheres de biquíni.

A criança, 2 anos, brincava com a caixa de Sucrilhos. E balbuciava qualquer coisa pertinente ao vocabulário das crianças de 2 anos.

— Marco, olha, tá na promoção.

Levantou primeiro o braço pra trás, depois acompanhou com o corpo levando em direção ao Marco pelo menos quatro pacotes de KY. E o mercado caiu num silêncio constrangedor. Até a mocinha do açougue, o rapaz da padaria… ninguém sobrou que não esperasse a resposta do rapaz, que até os pacotes atingirem altura suficiente, não tirou os olhos da revista. Minto, a criança não entendeu e continuou com o Sucrilhos.

As senhoras mais pudicas, os adolescentes libidinosos, a mocinha que recolhe as cestas, que levantou a cabeça; todos em uníssono: silêncio. O Marco viu do que se tratava e até impostou a voz. Fez que não viu que estava todo mundo olhando e devolveu a bomba com olhar de normalidade.

Juro que não sei o que responderia. Talvez desse risada e banalizasse a situação. Talvez, compactuasse com minha cônjuge, à essa altura, com detalhes da intimidade expostos, e manteria a dignidade. Ao menos. Talvez corresse até o carro para desligar a lanterna.

— É. Dizem que isso é bom pra passar na tatuagem.

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Segunda

Segunda-feira é dia de rir da própria desgraça. Rir para se conformar, por que quem pode, pode. Quem não pode, se conforma.

Pois eu fui cair na besteira de reclamar. Assinei aqueles 7 dias grátis de uma empresa que administra vagas de emprego — 7 é número cabalístico, devia ter percebido. Passados 6 dias, cancelei. Era uma quinta-feira.

Segunda, toca o celular:

— Alô, senhor Danilo.

Chamou de senhor é fria. Ou é polícia ou é telemarketing. Adivinha.

— O senhor esteve contratando nosso serviço por sete-dias-grátis, confirma? O senhor estaria interessado em estar utilizando nossos serviços por mais sete-dias-grátis, sem compromisso, senhor?

A expressão “sem compromisso” me remete a uma dúvida muito singular. Como pode alguém fazer algo sem compromisso? E o que isso implica vantagem? O jovem marombado chega pra patricinha e diz: posso te dar um beijo sem compromisso?

Mas voltando, a moça insistiu na idéia de que eu queria assumir um compromisso sem compromisso, e eu, lacônico:

— Não, obrigado.

Acho que algumas pessoas têm dificuldade em entender a amplitude, a magnitude ou a abrangência da palavra “não”. A minha caixa de emails é testemunha disso. Recebo, sem cadastro, sem compromisso e sem querer, três mensagens por semana com oferta de vagas da referida empresa.

Andava apagando sem remorso. Até que numa segunda-feira — como esse dia mexe com a gente — não resisti ao apelo da palavra “oportunidade”, que saltava em negrito na minha caixa de entrada e abri. Tinha uma vaga perfeita para uma amiga que me perguntou, sem compromisso, se eu sabia de alguma vaga por aí.

Só pra confirmar, joguei o nome da empresa no Google. Nada. 7, 8 páginas e nada de ter empresa com aquele nome. Àquela altura já não ia mais mandar a vaga pra minha amiga, por que eu tenho compromisso. Mas a história não podia ficar assim.

Abri uma reclamação — no auge do meu senso de justiça — num site de direitos do consumidor. A empresa que administra as vagas respondeu, colocou na frente do pedido de desculpas o currículo de n+1 anos de mercado e me satisfiz. Era só o que queria, que eles vissem que não sou otário. A vaga mesmo, nem era lá aquelas coisas.

Mas a praga da segunda-feira ainda viria com a inusitada resposta do presidente da empresa-que-não-está-no-Google. Entre outras ofensas, o distinto afirmou que eu não sei fazer uma pesquisa simples e que por isso a empresa dele jamais me contrataria.

Não sei se é praga da segunda ou do 7. Mas este ano promete. Temos segunda-feira, 7 de setembro.

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Tonhão da rapadura

Tonhão da Rapadura, o Politizador — agora eleito vereador da cidade de Campinas —, observa as queixas que o aguardam neste tenro 2009

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Um terno pra chamar de meu

Uma vez o desemprego me jogou na fila de uma administradora de consóricio. Foram três infinitos meses e um par de sapatos — gastei uns dois centímetros da sola. Tudo bonito, todo mundo de terno, e eu, recém chegado do mundo dos pobres, agora numa daquelas lojas onde os crentes mais pobrinhos compram suas roupas de culto.

Pacotão social-pentecostal no armário, botei a cara de pau pra correr atrás das vendas. Nem preciso dizer que nesse tempo só vendi uma moto pra um frentista de posto — capaz que fosse crente. Mas o que importa era dizer que eu não tinha terno. Tinha um blazer marrom, doado, que eu combinava ao léu com minhas calças de microfibra.

Todas as reuniões com grandes empresários para vender frotas pelo consórcio — negócios de milhares de reais — eram feitas de terno. Algumas até acompanhei para aprender como fazia, mas acabei me associando ao grupo dos que pediam para descer pela porta da frente do ônibus pra poder tomar refrigerante no almoço.

Claro que não era uma preferência franciscana. Mas passado o suplício, me entreguei a outro emprego no qual usava uniforme; e outro que era roupa casual — nada de terno.

Mas todo homem tem — na sua trajetória entre livro, árvore e filho — que fazer duas coisas na vida: miocano de xampu e comprar um terno novo. É bom, caso o leitor entenda que prezo pela qualidade das realizações antes de tê-las como um fim, que não se precipite a um terno vendido a quilo.

E na minha saga: um terno pra achar mais de mil. As lojas mais caras têm atendimento intelectualizado. Nem parece que você ouviu quinhentos e vinte e nove reais, senhor. As lojas mais baratinhas, atendimento esforçado, te perguntam o nome. Quando você se dispõe a gastar dinheiro, o mundo se dobra até você.

E são bem variados os preços e caimentos e tecidos; um mundo que não se cruzava com o meu até então. Camiseta é tudo igual. Mas havia chegado a minha vez. Um ritual de olhares, quase sensual. Não sei se signifiquei demais, mas não foi só difícil, nem só a facada. Teve sentimento.

E sei que essa história de terno sugere um quê de ascensão social. Na verdade mesmo: levei-o de ônibus pra casa.

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Semântica da feiura

Tem gente que não se contenta em ser feio. Tem que provocar a vergonha alheia. Tem que ser superlativo do que já foi dito sobre a falta de noção do feio. Nem Umberto Eco — feio confesso — esperava por essa.

Mas não era o cabelo, quiçá as pontas vermelho-gastas que delineavam o penteado moicano, também já abatido pelo tempo e o crescimento dos cabelos ao redor. Decerto não era o cabelo. Nem regata de laicra, de balé, com alças bem fininhas que mostravam mais que o dorso nu aqueles ombros largos e a projeção de pelos que saltava do decote longuíssimo. Certamente não era a regata.

Os olhos fundo esperavam o pão na fila do lanche. Era hora do almoço. Olhos tipo Silvestre Stalone, que afundam na medida em que o nariz emerge da face e desampara as bochechas, pontudo, lá na frente. Esses, sim, talvez contribuíssem para a feição anêmica do rapaz, que com a regata cavadíssima preta combinava um shorts malhado de preto e amarelo.

É que se destacava mais pela reprovação das velhinhas — como o olhar das velhinhas significam a coisa, né? — que por ser feio em si. Recorro ao livro do Eco, “A história da feiúra”, para definir feiúra em si como excremento, carcaça. O que difere da feiúra formal, que é apenas um desequilíbrio entre as partes e o todo.

Não tem tese alguma. Pra ser feio não precisa nada. Mas, em sendo, tem que ter noção.

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Champagne e água de cheiro

Era a visão do horror. Ela, que tinha estado em Paris recentemente, e usava a cor da moda num tom degradê para criar uma atmosfera cult; ela, que usava bata com gola que lhe ressaltava os seios frondosos e ainda lhe apontava mais o queixo levemente recoberto por madeixas loiras — de tinta. Mas os olhos eram azul-natural.

Tinha visto a visão (sic) do inferno. Como podia? O supermercado era dentro de um shopping renomado na zona oeste de São Paulo, ali frequentava a alta nata dos executivos e novas ricas da cidade. Indignou-se de olhos arregalados.

O rapaz da frente, na fila do caixa, nem sabia do mal-estar que causava, folheando uma revista VIP — capa da Luana Piovani — que alguém esqueceu ali, aberta. As fotos de calcinha da moça, que dizia não sofrer com o fim de seu último romance, faziam dela bem mais que uma trintona sexy. Era sexy e bem resolvida. Convenhamos, uma raridade.

Pois o rapaz, uns trinta e poucos, tinha na esteira à sua frente quatro ou cinco tubos de desodorante barato — acho que mais barato que Avanço — e três garrafas de champagne da promoção. Um perfeito exemplar de gigolô. Tinha braços fortes, se fosse jardineiro não o contrataria. Minha esposa passa, às vezes, as tardes em casa.

A combinação fatal de desodorante e champagne baratos se revelaram de um poder de perturbação, que escrevi essa crônica nos quinze segundos em que eu e a moça — a loira tingida, metida a socialaite — conjuminamos naquele olhar seguro de que os valores expressos pelas embalagens bregas dos produtos condiziam com a aperência.

Paguei e fui embora.

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Crônicos & Agudos é criação de Danilo Sanches. Além desse, o autor escreve para outro blog.
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