Crônicos & Agudos

Para bom entendedor, um pingo é garoa

Ela, insegura e gostosa. Ele manjava tudo. Dava pra ver nos olhos dela que ele, barbudo, roupas propositalmente descombinadas, manjava tudo. Impostava a voz, o olhar e tripudiava na insegurança da inócua jovem — mais que ele — gostosa.

Aposto que ela se vestiu diferente para aquela ida ao teatro. Ele fazia teatro. Há uns… faz um tempão. Manjava de tudo. Contava pra ela o porque das mãos da atriz terem se movimentado freneticamente aquela hora. Era um tal de… sei que era russo.

Os olhos dela mal se moviam, vidrados naquele jeito de falar. Afinal, como podia? Ele era tão… diferente. Enquanto isso, o vagão do metrô naquela — até então inóspita — Trianon/Masp, se empanturrava com o público que outrora enchia a sala do teatro.

Sabe porque os suportes do programa e sinopse da peça permaneceram cheios durante o espetáculo? E porque esvaziaram no fim? Porque ninguém entendeu. A peça era sobre um casal que se separou; e cada um explicava seus motivos, como todo casal que tenta explicar as coisas da intimidade: cheio de digressões. Afinal, quem entende a intimidade?

George Orwell regozijava-se enquanto a avalanche descia as escadas da estação. Metade lendo, a outra só carregando o livretinho vermelho com a legítima cara de paisagem. Talvez entendessem, mas quem tinha todas as respostas era o barbudinho que fisgou a gostosa.

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Crônicos & Agudos é criação de Danilo Sanches. Além desse, o autor escreve para outro blog.
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