Crônicos & Agudos

Maria, só Maria

Deitados os dois na cama de solteiro, ela pede, com uma palavra, pelo livro do Cocoricó. Aquele que ganhamos do William. Na verdade são três livros, com histórias que ela decorou com a presteza com que tem na memória os filmes do Rei Leão, Nemo, Backyardigans, Charlie e Lola…

Deita-se no acolchoado de gordura que fica na articulação do meu ombro quando abro os braços e a espero deitar. Aquelas histórias não começam como os clássicos, mas repetimos, olhos nos olhos e em uníssono:

— Era uma vez…

E as histórias seguem, os três livros, na sequência que ela escolhe. E aos poucos as respostas pelos nomes dos personagens demoram mais e ela aconchega a cabecinha no meu ombro, às vezes pega no meu cabelo. E, então, pede:

— Mu.

Mu é o apelido que ela deu pra mamadeira. Porque na embalagem do achocolatado tem uma vaca. E vaca é mu, não tem jeito.

Então vem quentinho o Mu, que o Word insiste em corrigir pra “Um”. Parece que não entende, que insensível. Então a luz se apaga, seguro o Mu para ela, que nem sempre aceita todos os 240 mL. Ela que sabe. Nós, adultos, que muitas vezes aceitamos algo de má vontade pra fazer tipo.

Então ela se vira, ainda fazendo minha gordurinha de almofada e abraça meu braço esquerdo. Emblemático, embora já não o levante mais, punho cerrado, com a mesma veemência. Quem dera ela entendesse, ao menos, a solidariedade pelos aflitos.

E meus dedos correm pelo cabelo ondulado, penteando-os para cima, enquanto as digitais massageiam a cabeça. E eu sinto que ela percebe a cumplicidade daquilo. E se não acalmo meus pensamentos, de adulto chato e turrão, ela não adormece. É nosso diálogo, nosso segredo.

Amanhã ela faz dois anos. E eu não sei mais o que seria de mim sem ela.

Filed under: crônicas

Wild world web

Pro matuto, essa história de Internet era coisa de paulista. Não tinha necessidade ou interesse, então tinha desconhecimento. Até que veio o rapaz do censo.

— Mangalarga? Não, aqui nós cria Andaluz, Quarto de Milha — rebate o matuto.

O rapaz insiste com certo jogo de cintura, tenta dar a volta por outro lado e pede a opinião do roceiro sobre Internet via rede elétrica. Caso fosse positiva a resposta, poderia aprofundar no assunto.

— É gato. Aqui a força é gato dum poste que tem na estrada. Luz não chega aqui não.

Ele e mais dois que puxaram. Embrenharam no mato com o fio que compraram na cidade — mais de mil metro — e foram até a cerca que divide o conglomerado de fazendas e a estradinha de terra que liga o nada e o menos ainda. Lá tinha um poste que levava a eletricidade para a fazenda do deputado e, alheia ao mundo, passava sorrateiramente, em linha reta.

Cabearam como puderam, mas vira e mexe, quando chove, têm que andar esses quilômetros a pé pra levantar o gato. Cavalo não anda naquelas paragens. Terra seca descoberta rodeada de mato fino e muito buraco. Luz, só depois que para a chuva.

A Anatel teria que esperar mais um pouco para ver o país integrado pela rede de forma barata e socialmente responsável. Antes de conectar, era preciso ainda iluminar aqueles lares — no sentido que se usava no século 17. E no outro também.

E o matuto não sentiria falta por enquanto. Essa modernidade, afinal, cria soluções para problemas que ela mesmo traz.

Filed under: crônicas

Para bom entendedor, um pingo é garoa

Ela, insegura e gostosa. Ele manjava tudo. Dava pra ver nos olhos dela que ele, barbudo, roupas propositalmente descombinadas, manjava tudo. Impostava a voz, o olhar e tripudiava na insegurança da inócua jovem — mais que ele — gostosa.

Aposto que ela se vestiu diferente para aquela ida ao teatro. Ele fazia teatro. Há uns… faz um tempão. Manjava de tudo. Contava pra ela o porque das mãos da atriz terem se movimentado freneticamente aquela hora. Era um tal de… sei que era russo.

Os olhos dela mal se moviam, vidrados naquele jeito de falar. Afinal, como podia? Ele era tão… diferente. Enquanto isso, o vagão do metrô naquela — até então inóspita — Trianon/Masp, se empanturrava com o público que outrora enchia a sala do teatro.

Sabe porque os suportes do programa e sinopse da peça permaneceram cheios durante o espetáculo? E porque esvaziaram no fim? Porque ninguém entendeu. A peça era sobre um casal que se separou; e cada um explicava seus motivos, como todo casal que tenta explicar as coisas da intimidade: cheio de digressões. Afinal, quem entende a intimidade?

George Orwell regozijava-se enquanto a avalanche descia as escadas da estação. Metade lendo, a outra só carregando o livretinho vermelho com a legítima cara de paisagem. Talvez entendessem, mas quem tinha todas as respostas era o barbudinho que fisgou a gostosa.

Filed under: crônicas

Este blog é melhor visualizado
no navegador Mozilla Firefox
Crônicos & Agudos é criação de Danilo Sanches. Além desse, o autor escreve para outro blog.
março 2009
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

RSS Nanocontos no Twitter

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
wordpress visitors