O mantra era entoado toda vez que a discussão não tinha mais pra onde ir. Ninguém queria fulano em seu time, no futebol de rua, então ele ficava no meio do campo pra atrapalhar e declamava em sua defesa:
— A rua é pública!
Uns articulavam melhor, outros bem pior a frase, mas aquilo era irrefutável. Não tinha um que não cedesse sob essas palavras, diga-se, mágicas. Mesmo entre os adultos, às vezes se ouvia encaixada num período um pouco mais complexo, com advérbios que as crianças não ousavam pronunciar.
Fosse na bolinha de gude, fosse no bétes, tinha sempre alguém que reivindicava pra si a urgente condição de cidadão de direito no uso do espaço público. Mas o debate, no mais das vezes, acabava em porrada mesmo. Já viu criança pedir tréplica?
Ainda hoje penso duas vezes antes de reclamar do vizinho da frente, que escolhe as tardes de sábado para arrumar o motor do carro, estacionado no meu portão. Já viu carro velho pra regular o motor? Cada acelerada comprida e profunda chega a cortar a respiração.
Já pensei em sair lá pra reclamar. A minha filha, a Maria, está, via de regra, quase dormindo quando ele começa. Eu e ela adoramos essa soneca da tarde — cada um com seu motivo —, e o cara, contumaz, adora arrumar o carro.
A vontade me leva sempre até a porta, mas parece que ouço uma voz no fundo da mente, que me repete o mantra. Hoje sei que as coisas não são bem assim, que talvez o cara nem queira discutir o espaço público. Pode ser até que eu acabe dizendo que o espaço é público e justamente por isso é que não se deve usá-lo como privado, mas…
Quem arrisca?
Arquivado como:crônicas
Puxa, Danilo A D O R E I seu texto. Mesmo, de verdade!!!
Não sabia que você tinha esse blogue…
Obrigada pela visita, pelas palavras, pelas fotos, por tudão.
Adorei conhecer você.
Beijo
Ô, Andrea, quem adorou fui eu. E sua visita é a cereja do nosso bolo.
beijo